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Fernando Pessoa e o Cinema

October 31, 2018 12:33 pm

«Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.»

Álvaro de Campos

A obra de Pessoa é um sonho, um teatro dos heterónimos, ou «drama em gente», como ele lhe chamou. Pode-se dizer que tudo isso tem algo de cinematográfico, dada a predominância da imaginação na escrita pessoana. A sétima arte não ficou, pois, indiferente ao génio português, nem este a ela. Vale mesmo a pena saber mais sobre Fernando Pessoa e as artes cinematográficas.

Filmes sobre Pessoa

Sem ter pretensão de esgotar o tema, destacamos aqui alguns filmes, desde já dois marcantes, ambos por João Botelho: Conversa acabada (1981) e Filme do Desassossego (2010). O primeiro representa a amizade entre os jovens poetas Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, almas pares do modernismo português. O suicídio de Sá-Carneiro (1916) foi um evento traumático para Pessoa, que ao seu «maior amigo» dedicou um saudoso poema em 1934. Entre os protagonistas e as vozes do filme, eis várias personalidades da cultura portuguesa, como o poeta António Barahona, o realizador Manoel de Oliveira e o professor pessoano Fernando Cabral Martins (no papel de Pessoa). Quanto ao Filme do Desassossego, é uma interpretação do Livro do Desassossego, a mais conhecida obra em prosa de Pessoa, por este entregue, na última fase da escrita, à autoria do semi-heterónimo Bernardo Soares, aqui interpretado por Cláudio da Silva. Ambientado numa Lisboa do século XXI, o Filme trabalha a interseção entre o sonho e a realidade, típica do Livro. A música desempenha um importante papel, inclusivamente pela presença de fadistas como Carminho e Ricardo Ribeiro.

 

Ainda no que respeita às longas-metragens, em 2011 saiu Ophiussa – Uma cidade de Fernando Pessoa, de Fernando Carrilho, périplo pela Lisboa do poeta, evocada pelo nome que os antigos gregos davam ao ocidente ibérico, Ophiussa, «Terra das serpentes». Título desassossegante.

Quanto aos documentários, assinalamos ainda Mistérios de Lisboa (2009), por José Fonseca e Costa, baseado em Lisbon: what the tourist should see, texto atribuído ao ortónimo. Mencionamos ainda dois filmes: Lisbon Revisited de Edgar Pêra (2014), percurso onírico e transumano pelos poemas e a cidade de Pessoa, cujo título homenageia dois dos seus poemas; La gentilezza de tocco (1987), do realizador italiano Francesco Calogero, também inspirado no Desassossego.

No que respeita às curtas-metragens, nesta panorâmica sobre Fernando Pessoa e o cinema destacamos três, entre várias: Dia triunfal (2014) de Rita Nunes, originalíssima releitura da «génese dos heterónimos»; Eu, Fernando Pessoa (2013), com ilustrações do artista brasileiro Eloar Guazzelli; Como Fernando Pessoa salvou Portugal (2018) do realizador francês Eugène Green, que ironiza sobre temas políticos e culturais lusos, reinterpretando o evento pelo qual Pessoa, na década de 1920, propôs um mote publicitário da Coca-Cola. Trata-se, nos últimos dois casos, de artistas estrangeiros, a testemunhar uma universalização de Fernando Pessoa pelas artes do cinema.

Fernando Pessoa e o cinema: Argumentos para filmes

Após 1917 e na década de 1920, Pessoa escreveu alguns Argumentos para Filmes, ainda no tempo do cinema mudo, que ficaram incompletos, inéditos à data da sua morte. Publicados em 2011 pela Ática, com edição de Patricio Ferrari e Claudia J. Fischer, são escritos principalmente em inglês. Os dois investigadores disseram, em entrevista ao Jornal de Notícias: «São “thrillers”, […] lembram um bocadinho comédias de costumes, são sempre brincadeiras em torno de trocas de identidade», o que é bastante pessoano. Entre outros projetos, Pessoa tencionou lançar uma produtora cinematográfica, a «Ecce Film», na Rua de São Bento, na mesma zona onde tinha vivido na adolescência. Já a partir destas breves informações, é claro que os Argumentos para Filmes constituem uma importante e interessantíssima faceta, ainda pouco conhecida, para se redescobrir a relação entre Fernando Pessoa e o cinema.

Fabrizio Boscaglia

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