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Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz: 100 anos de amor (1919-2019)

outubro 31, 2019 1:12 pm

Foi em 1919 que Fernando Pessoa conheceu a mulher que ficará na história como a sua única namorada: Ofélia Queiroz. Os dois ter-se-ão conhecido em finais do ano, pelo que, entre outono de 2019 e o início do inverno, celebra-se o centenário deste encontro, que foi marcante na vida de Pessoa e que deu início a um namoro entre os mais lidos e falados da literatura portuguesa. Vamos conhecer mais de perto a dimensão do amor na vida e na obra do poeta…

Fernando e Ofélia

É sabido que Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz conheceram-se no escritório da firma Félix,  Valladas & Freitas, na Rua da Assunção n.º 42, 2º, na Baixa de Lisboa. Fernando tinha 31 anos e ali trabalhava, num dos muitos escritórios em que exerceu a atividade de tradutor de documentos comerciais. Ofélia, com 19 anos de idade, era a mais jovem e mimada de oito filhos, falava francês e gostava de ter uma vida mais independente da família, por isso, procurou trabalho como empregada na mesma firma, onde foi admitida a trabalhar em finais de 1919.

Foi a própria Ofélia, muitos anos depois, que contou o primeiro encontro entre os dois, no próprio dia em que se apresentou para entrevista. Célebre ficou a descrição pela qual Ofélia retrata Fernando, ao vê-lo subir às escadas do prédio: «Ao andar, parecia não pisar o chão». Ofélia estava à espera que alguém lhe abrisse a porta do escritório e de repente vê chegar este homem com «óculos e laço ao pescoço», que logo gerou na jovem uma simpática reação: «Não sei porquê, aquilo deu-me uma terrível vontade de rir». Não sabia, então, que aquele homem se iria tornar, daí a pouco tempo, num seu colega (e não só…).

É também pelas palavras de Ofélia que conhecemos as circunstâncias do primeiro beijo entre os dois. Estamos em inícios de 1920 e, de repente, sozinhos no escritório, sem eletricidade por causa de um problema técnico, os dois tiveram a primeira ocasião de intimidade. E o poeta não a deixou passar em vão. Ligou um candeeiro a petróleo, aproximou-se da mesa onde Ofélia costumava trabalhar e, à espera de que a eletricidade voltasse, declamou para ela versos de amor do Hamlet de Shakespeare, dedicados a Ophelia, personagem feminina do drama:

«Oh, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! Até ao último extremo, acredita!»

O que se passou logo a seguir já entrou na memória coletiva dos leitores pessoanos. Pelas palavras de Ofélia: Fernando «beijou-me apaixonadamente, como louco.». Ofélia voltou a casa «comprometida e confusa», e foi assim que começou o namoro. Um namoro feito de beijos, sim, mas também de passeios por Lisboa, e de cartas de amor.

 

Todas as cartas de amor são ridículas

O namoro durou cerca de dois anos, em duas fases separadas: a primeira, em 1919-1920; a segunda, em 1929-1930. O principal testemunho destes anos são as cartas de amor, que nas décadas posteriores à morte do poeta foram publicadas em várias e sucessivas edições. Também conhecemos, graças ao esforço dos académicos Pizarro, Ferrari e Cardiello, algumas das prendas que Pessoa ofereceu à sua amada.

Nas cartas, descobrimos um Pessoa um pouco diferente, por assim dizer mais humano e sentimental do génio abismal do Desassossego e do arquiteto que construiu a complexidade dos heterónimos. Emerge, nas palavras do «Nininho» dedicadas ao «Bebé», um Pessoa apaixonado, por vezes ciumento, doce, dedicado e, como se devia esperar, irônico. Até aconteceu o heterónimo Álvaro de Campos enviar uma carta a Ofélia, para comunicar que que o seu “amigo” Fernando não se encontrava, naquele dia, em condições de… comunicar com a própria Ofélia (!). Foi Campos, aliás, o autor de um conhecido poema de 1935 em que parece ecoar o namoro epistolar entre Fernando e Ofélia:

«Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

 

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

 

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

 

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.»

 

Sem dúvida, Ofélia percebeu com quem estava a lidar: um homem, Pessoa, cuja missão literária – que segundo ele o próprio Deus lhe tinha entregado – ocupava toda a sua mente e toda a sua atividade. Será esta, juntamente com as undívagas variações de humor que por vezes apanhavam Pessoa, a razão que levou este a suspender e acabar com a frequentação da Ofélia, quer em 1920, quer, definitivamente, em 1930. Quanto a esta segunda fase do namoro, é importante referir que ela deve-se à iniciativa de Carlos Queiroz, jovem poeta, amigo de Pessoa e sobrinho de Ofélia, com quem vivia no Rossio, perto da Estação. Com efeito, foi Carlos Queiroz quem entregou à “tia” Ofélia a célebre fotografia de Pessoa, apanhado «em flagrante delitro» numa loja da Abel Pereira da Fonseca, na Baixa. A visão da imagem suscitou simpatia em Ofélia e daí a pouco iniciou-se a segunda fase do namoro, que Pessoa ia novamente interromper após pouco meses, declarando a Ofélia o facto de ele não poder (ou não querer) casar, devido às dificuldades que a sua missão de escritor impunha à sua vida (entre elas, dificuldades financeiras notáveis).

O amor em Pessoa

Tem-se dito mais de uma vez que o aspeto amoroso ou sentimental não é predominante na escrita e na vida de Pessoa. Pode ser, em parte, verdade. Contudo, quem tiver a paciência de percorrer as milhares de páginas da obra do poeta, reparará na presença de vários poemas de amor e outros textos ligados a temas sentimentais e ao feminino. Quanto a este último aspeto, por exemplo, uma seleção de poemas dedicados a mulheres foi objeto de interpretação musical pela pianista e compositora brasileira Patrícia Lopes, no álbum O Feminino em Pessoa.

No que respeita aos poemas de amor, existem alguns livros e antologias que nos oferecem esta faceta do autor de forma muito oportuna. Mencionamos aqui três: Amo como o Amor Ama, pela organização de Mariana Grey de Castro; Amar é Pensar, antologia poética editada por Vasco Silva; outra antologia, Amor na Obra Literária de Fernando Pessoa, prefaciada por Ricardo Belo de Morais.

Antes de finalizar, é oportuno referir que apesar de Ofélia ter provavelmente sido o único compromisso amoroso com alguma estabilidade na vida de Pessoa, este terá tido outras paixões mais ou menos breves, como é o caso da mulher inglesa Madge Anderson, com a qual Pessoa trocou cartas e à qual provavelmente dedicou versos poéticos, pouco tempo antes de falecer, em 1935. E mais segredos ainda poderão sair da famosa “arca” deste homem tão «plural como o universo». Contudo, cem anos depois daquele primeiro e inesperado encontro nas escadas de um prédio da Baixa, o nome de Ofélia Queiroz continua a ser o nome do amor, quando pensamos em Fernando Pessoa.

 

«Fiquei louco, fiquei tonto,

Meus beijos foram sem conto,

Apertei-a contra mim,

Enlacei-a nos meus braços,

Embriaguei-me de abraços,

Fiquei louco e foi assim.»

F.Pessoa

 

Fabrizio Boscaglia

 

Edições consultadas e citadas:
Pessoa, Cartas de amor, organização, prefácio e notas de David Mourão-Ferreira, preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Ática, 1979.
Cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, ed. Manuela Parreira da Silva, 3ª ed., Porto, Assírio & Alvim, 2015.

Imagem: “Ofélia Queiroz em 1920, ano em que namorou Fernando Pessoa” CC BY-SA 4.0

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